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A era da curadoria e a geração de conteúdo de impacto

 

Texto original: Camilo Salvador

Qual a nossa situação?

O Brasil é o país que mais consome notícias via redes sociais. Setenta porcento (70%) dos usuários de internet acessam notícias pelo Facebook. Noventa e dois milhões de brasileiros (45% da população) acessam o Facebook todo mês.

Nós estamos MESMO vivendo na era do excesso, do big data. Não tem mais volta.

Mas será que o conteúdo acessado por esse público enorme está contribuindo para sua própria educação, gerando conhecimento, ou são apenas ilustrações incompletas, notícias relâmpago rapidamente apagadas da linha do tempo?

Nenhuma das metas (parciais) do Plano Nacional de Educação (PNE), estabelecidas em 2014, foram cumpridas. 1,7 milhões de jovens (17,4%) estão fora do ensino médio. O pior ensino médio da história.

Pois isso aumenta a importância do conteúdo online na vida dos jovens.

Ainda assim, parece que a propagação de notícias de cunho mais crítico ou analítico, sem contextualização, não provoca nas pessoas a vontade de dar atenção àquele conteúdo.

E com isso, a abundância de dados e informações sobre um determinado assunto tornou-se trivial, nos massacrando por diversas vias, todas as horas do dia.

O que devemos assistir? Sobre o que devemos ler? Quais séries devemos acompanhar? Quem seguir no twitter? E no Medium?

No caso de profissionais de jornalismo, publicidade e design, a pergunta vai além — o que eu devo criar? qual o melhor formato? qual o melhor veículo? a fim de evitar a máxima (depois de tudo pronto) “como é que eu não pensei (vi) nisso antes?”

Isso porque nós (também) estamos vivendo “A era da curadoria”, título do livro de Mário Sérgio Cortella e Gilberto Dimmenstein, recentemente lançado pela livraria cultura.

“Aquele que lida com a curadoria de ideias (informações, conhecimentos), não pode, de maneira alguma, supor que o outro, que não pensa como ele, é tolo, vazio ou superficial (…). Pois a possibilidade de se comunicar (com alguém) se eu o desprezar (aquilo que ele sabe) fica extremamente reduzida.” Mario Sergio Cortella.

E como bem descrito pelo youPIX, na era do excesso, o segredo é a escassez.

Mas o que é curadoria?

Como bem explanado pelo Prof. Cortella, curadoria não consiste em afirmar: “olha, isso aqui é importante, viu?”, mas sim contextualizar as ideias. Compartilhar o conhecimento. Criar uma linguagem, empatia e possibilitar engajamento.

Curadoria é abrir o diálogo, permitindo que ele enriqueça com outros pontos de vista; com outras experiências.

Até porque, muitas vezes, o que é importante não é auto evidente.

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Por exemplo, ler Marx é importante? Muitos consideram que seus textos só são relevantes para quem idolatra uma ideologia de esquerda. Entretanto, Marx é considerado o pensador mais importante de todos os tempos pelos acadêmicos. A hipótese do Materialismo histórico dialético confirma-se todos os dias através da nossa cultura de consumo de bens e serviços.

Recentemente li um artigo interessante chamado “Tempo livre e consumo na sociedade capitalista”, onde o autor mostra que até a nossa maneira de criar Hobbies (viagens, séries) pode ser entendida como parte da cultura de consumo — e se é limitado pelo consumo, este não pode ser denominado tempo livre.

O mesmo acontece com a ciência básica ensinada no colégio, necessária para o desenvolvimento de todas as tecnologias que utilizamos — do projeto de um parafuso ao rover em Marte. Quando éramos menores, esse conteúdo não parecia tão relevante, não é?

“Vivemos em uma sociedade extremamente dependente da ciência e da tecnologia, em que quase ninguém sabe algo sobre ciência e tecnologia.” Carl Sagan.

Uma pena que a resposta à indignação de Carl Sagan tenha surgido apenas duas décadas após sua morte, com a expansão dos blogs de ciência pelo mundo. Até o famoso site de pre-prints arXiv agora tem um blog por aqui.

Mas isso ainda não refletiu em uma melhoria no ensino de ciências. Só o futuro dirá se esse interesse vai crescer ou não.


Na geração de conteúdo, o que é importante?

Paulo Freire já dizia que há diversas vias para o aprendizado e construção do conhecimento.

O bom conteúdo na era da curadoria deve explorar isso: deve ser simples, colaborativo e abranger diversos pontos de vista de maneira a ganhar projeção na rede.

Sobre o poder da simplicidade, vale ressaltar as recomendações de John Maeda em suas leis da simplicidade. As leis podem ser elegantemente agrupadas em três categorias (imagem). Um conteúdo mais simples é, na maioria das vezes, mais direto e mais eficiente, possibilitando maior engajamento.

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E para produzir um melhor conteúdo…

É preciso responsabilidade. Pensar no impacto que ele vai gerar.

Nós reservamos três dicas de como fazer uma curadoria do conteúdo que consumimos, de modo que isso ajude a gerar bom conteúdo:

1. Boas fontes: procure seguir pessoas e publicações com conteúdo autêntico e confiável. Procure por elas em diversas redes (Facebook, Twitter, Medium). Cite-as no seu texto. Levante hipóteses. Faça provocações com base no que outras pessoas escreveram.

(Eu, particularmente, sigo muita gente diferente. Desde escritores de romance de Tóquio até astrônomos australianos.)

2. Continue procurando por outras referências. Depois de concluir algo, ou de escrever um texto, procure por alguém que chegou a uma conclusão totalmente diferente. Ou que utilizou outra metodologia, outra abordagem. Essa é uma parte essencial da melhoria contínua, e é também parte integrante do famigerado pensamento crítico.

3. Reescreva, revise e peça ajuda. Deixe o texto descansar alguns dias. Leia-o com atenção, e tente reescrever alguns parágrafos. Peça para outras pessoas comentarem, revisarem, complementarem. A construção coletiva é uma das bases do Coletividad, logo, acreditamos que isso pode ser um grande diferencial na hora de gerar conteúdo de impacto.

Semana passada me enviaram esse texto de Josh Spilker que explica como “entrar na mente do seu autor/pensador favorito”. Com a intenção de compreender melhor o autor Jack Keurac, Simon Morris reescreveu (redigitou, revisou e publicou) TODO o livro “On the road” no seu blog. Frase por frase. Sendo assim, além de reescrever o nosso próprio conteúdo, podemos reescrever ideias/textos/projetos de amigos, de modo a melhorar nossas técnicas, escrita e até inserir novos elementos no projeto.

Por fim, quando estiver criando, lembre-se de que todas as pessoas possuem algo que lhes cativa, que lhes chama atenção. Todos nós temos! A curadoria deve facilitar o acesso da informação aos interessados, dentro de uma boa contextualização, sempre provocando engajamento e reflexão.

Texto original: Camilo Salvador

 

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